Nem todo trauma deixa uma marca visível.
Algumas feridas não aparecem no corpo. Elas aparecem na forma como uma mulher se relaciona, na dificuldade de confiar, na necessidade de agradar, no medo de decepcionar, na culpa constante ou naquela sensação difícil de explicar de que, mesmo fazendo tudo certo, alguma coisa dentro dela continua doendo.
O trauma emocional pode nascer de experiências vividas na infância ou ao longo da vida que foram intensas, repetidas ou difíceis demais para serem elaboradas naquele momento.
Abandono, rejeição, negligência emocional, humilhações, violência psicológica, abuso emocional, perdas, relações instáveis e experiências em que a criança precisou amadurecer antes da hora podem deixar marcas profundas.
E essas marcas podem continuar presentes muitos anos depois.
Uma mulher pode chegar à vida adulta sem perceber que determinados comportamentos, medos e dificuldades estão relacionados à própria história.
Ela apenas pensa:
“Eu sou assim.”
Mas existe uma diferença entre ser assim e ter aprendido a funcionar dessa maneira para conseguir sobreviver emocionalmente.
O que é trauma emocional?
Trauma emocional é uma experiência que ultrapassa a capacidade que a pessoa tinha, naquele momento, de compreender, elaborar e integrar aquilo que estava vivendo.
Isso não significa que duas pessoas passarão pela mesma situação e desenvolverão exatamente as mesmas consequências.
O impacto de uma experiência depende de muitos fatores: idade, contexto, frequência dos acontecimentos, presença ou ausência de apoio, qualidade dos vínculos e recursos emocionais disponíveis naquele período.
Na infância, isso ganha uma importância ainda maior.
Uma criança depende dos adultos para se sentir protegida, compreendida e segura. Quando justamente essas relações são fonte de medo, rejeição, instabilidade ou desamparo, ela pode desenvolver maneiras de se adaptar ao ambiente.
Ela aprende a observar o humor dos outros.
Aprende a não incomodar.
Aprende a esconder o que sente.
Aprende a ser boazinha.
Aprende a cuidar de todo mundo.
Aprende que demonstrar necessidade pode trazer rejeição.
Essas adaptações podem ter sido importantes para aquela criança.
O problema é quando continuam comandando a vida da mulher adulta.
Trauma emocional na infância pode afetar a vida adulta?
Sim.
Experiências emocionais difíceis na infância podem influenciar a forma como uma pessoa percebe a si mesma, estabelece vínculos, lida com conflitos e responde às próprias necessidades.
Uma menina que cresceu sentindo que precisava merecer amor pode se tornar uma mulher que tenta constantemente provar seu valor.
Uma menina que aprendeu que seus sentimentos incomodavam pode se tornar uma mulher que pede desculpas por sentir.
Uma menina que precisou cuidar emocionalmente dos adultos ao seu redor pode se tornar uma mulher que assume responsabilidades por todos.
Uma menina que viveu rejeição pode se tornar uma mulher extremamente sensível a qualquer sinal de afastamento.
Isso não significa que o passado determina o futuro.
Significa que a história deixa marcas que precisam ser compreendidas para que possam deixar de conduzir a vida no automático.
Quais são os sinais de trauma emocional na vida adulta?
O trauma emocional não aparece da mesma maneira em todas as pessoas.
Mas alguns padrões podem indicar que existe uma ferida emocional ainda não elaborada.
1. Necessidade constante de agradar
Você sente dificuldade de dizer não.
Tem medo de decepcionar.
Pensa muito antes de expressar o que realmente quer.
Muitas vezes sabe que não gostaria de fazer determinada coisa, mas acaba fazendo para evitar conflito ou rejeição.
2. Culpa excessiva
Você se sente responsável pelo sofrimento das pessoas ao seu redor.
Quando alguém está triste, pensa imediatamente no que fez de errado.
Quando estabelece um limite, sente culpa.
Quando escolhe a si mesma, sente que está sendo egoísta.
A culpa pode se tornar uma maneira automática de interpretar a própria existência.
3. Medo de abandono
Pequenas mudanças na relação podem provocar uma grande insegurança.
Uma mensagem que não chega.
Uma mudança de comportamento.
Uma discussão.
Um afastamento.
A sensação de que alguém pode ir embora pode despertar uma angústia muito maior do que a situação presente parece justificar.
4. Dificuldade de confiar
Você deseja proximidade, mas ao mesmo tempo teme ser machucada.
Pode desconfiar das intenções das pessoas ou esperar que algo ruim aconteça mesmo quando a relação parece segura.
Em alguns casos, a mulher se protege tanto da possibilidade de sofrer que também encontra dificuldade para receber amor.
5. Necessidade de controlar tudo
Quando a vida emocional foi marcada por imprevisibilidade, controlar pode parecer uma forma de segurança.
Organizar tudo.
Antecipar problemas.
Resolver tudo sozinha.
Não depender de ninguém.
Não pedir ajuda.
Por trás da necessidade de controle, muitas vezes existe uma dificuldade profunda de descansar na presença do outro.
6. Dificuldade de reconhecer as próprias necessidades
Você sabe cuidar dos outros.
Sabe perceber quando alguém está cansado.
Sabe o que seus filhos precisam.
Sabe o que seu marido precisa.
Sabe como ajudar sua família.
Mas, quando alguém pergunta:
“E você, do que precisa?”
Você não sabe responder.
7. Sensação de não saber quem você é
Você passou tanto tempo correspondendo às expectativas dos outros que pode ter dificuldade para reconhecer seus próprios desejos, opiniões e limites.
Sabe ser filha.
Sabe ser mãe.
Sabe ser esposa.
Sabe ser profissional.
Sabe cuidar.
Mas quem é você quando não está desempenhando nenhum desses papéis?
Essa pergunta pode ser desconfortável.
E profundamente necessária.
O trauma emocional também pode aparecer nos relacionamentos
Muitas mulheres chegam à vida adulta acreditando que seus problemas estão apenas no relacionamento atual.
Mas determinadas relações podem ativar feridas muito antigas.
Uma mulher que cresceu tentando conquistar o amor de alguém emocionalmente indisponível pode acabar se envolvendo repetidamente com pessoas que oferecem pouco afeto e muita instabilidade.
Não porque queira sofrer.
Mas porque aquilo pode parecer familiar.
O familiar nem sempre é saudável.
É possível conhecer racionalmente uma relação saudável e, ainda assim, sentir dificuldade para permanecer nela.
Também é possível reconhecer que determinada relação faz mal e continuar emocionalmente presa a ela.
Quando isso acontece, não basta perguntar:
“Por que eu não vou embora?”
É preciso compreender:
“O que essa relação representa para mim?”
“O que eu aprendi sobre amor?”
“O que eu acredito que preciso fazer para ser escolhida?”
Essas perguntas levam a história para dentro do processo terapêutico.
Trauma emocional e falso self
Algumas mulheres aprendem muito cedo a construir uma versão de si mesmas que corresponde ao que o ambiente espera.
Elas se tornam responsáveis.
Boas.
Educadas.
Fortes.
Independentes.
Disponíveis.
Perfeitas.
Essa adaptação pode funcionar tão bem que, anos depois, a própria mulher já não sabe diferenciar o que realmente deseja daquilo que aprendeu que deveria desejar.
É nesse território que podemos compreender o conceito de falso self, desenvolvido por Donald Winnicott.
De forma simples, podemos pensar no falso self como uma organização construída para proteger o verdadeiro self e adaptar-se às exigências do ambiente.
Não se trata de uma “falsidade” consciente.
É uma maneira de existir que pode ter sido necessária em determinado momento.
O problema aparece quando a mulher passa a viver permanentemente distante de si.
Ela funciona.
Produz.
Cuida.
Resolve.
Mas não se sente verdadeiramente viva.
Trauma emocional não significa fraqueza
Essa é uma distinção importante.
Ter marcas emocionais não significa ser fraca.
Muitas mulheres que carregam traumas emocionais são justamente aquelas que passaram anos sendo extremamente funcionais.
Elas trabalham.
Criam filhos.
Cuidam da casa.
Resolvem problemas.
Sustentam a família.
Aparentemente, dão conta de tudo.
Por dentro, porém, existe cansaço.
Existe solidão.
Existe uma sensação de estar vivendo uma vida que não pertence completamente a elas.
A força que ajudou uma mulher a sobreviver pode se transformar em uma armadura.
E uma armadura protege.
Mas também impede o toque.
É possível superar um trauma emocional?
O objetivo de um processo terapêutico não é apagar o passado.
Não podemos voltar no tempo e oferecer à criança aquilo que ela não recebeu.
Mas podemos construir, no presente, novas possibilidades de compreender a própria história e de se relacionar consigo mesma e com os outros.
O trabalho terapêutico pode ajudar a mulher a:
- reconhecer experiências que foram normalizadas;
- compreender padrões repetitivos;
- identificar necessidades emocionais;
- estabelecer limites;
- reconhecer seus sentimentos;
- compreender suas relações;
- desenvolver maior autonomia;
- construir uma relação mais verdadeira consigo mesma.
A reconstrução não acontece pela obrigação de “ser forte”.
Ela começa quando existe espaço para reconhecer aquilo que doeu.
E quando essa dor pode ser acolhida sem que a mulher precise continuar se abandonando.
Quando procurar terapia para trauma emocional?
Nem toda dificuldade emocional significa necessariamente que exista um trauma.
Mas procurar ajuda pode ser importante quando determinados padrões começam a prejudicar sua vida, seus relacionamentos ou sua capacidade de estar bem consigo mesma.
Alguns sinais de que pode ser importante buscar acompanhamento são:
- sofrimento emocional persistente;
- relacionamentos repetidamente destrutivos;
- dificuldade intensa de estabelecer limites;
- culpa constante;
- medo excessivo de abandono;
- sensação de vazio ou desconexão de si;
- dificuldade de confiar;
- necessidade permanente de agradar;
- lembranças dolorosas que continuam interferindo no presente;
- sensação de estar apenas sobrevivendo.
Você não precisa esperar chegar ao limite para olhar para a própria história.
O trauma faz parte da sua história, mas não precisa ser o seu destino
Uma experiência difícil pode explicar muitos dos seus comportamentos.
Mas explicação não é condenação.
Compreender por que você aprendeu a funcionar de determinada maneira abre espaço para construir outras possibilidades.
A mulher que passou anos cuidando de todos pode aprender a reconhecer suas próprias necessidades.
A mulher que viveu tentando agradar pode aprender a dizer não.
A mulher que teve medo de abandono pode construir relações com mais segurança.
A mulher que se desconectou de si pode começar a voltar para casa.
Para dentro de si.
É esse movimento que está no centro do meu trabalho com mulheres.
Como psicanalista Winnicottiana e Ferencziana e terapeuta de mulheres, acompanho mulheres que desejam compreender suas histórias, reconhecer as marcas do desamparo e reconstruir a relação consigo mesmas.
Porque a reconstrução começa onde existe amparo.
Perguntas frequentes sobre trauma emocional
O que pode causar um trauma emocional?
Traumas emocionais podem estar relacionados a experiências como abandono, rejeição, negligência emocional, violência psicológica, abuso emocional, perdas, humilhações, relações instáveis e outras situações que ultrapassaram os recursos emocionais disponíveis naquele momento.
Trauma de infância pode aparecer na vida adulta?
Sim. Experiências vividas na infância podem influenciar autoestima, relacionamentos, limites, confiança, percepção de si e formas de lidar com emoções na vida adulta.
Como saber se tenho um trauma emocional?
Não existe uma lista de sintomas que, sozinha, determine a existência de um trauma. A compreensão precisa considerar a história individual, as experiências vividas e a forma como elas continuam repercutindo no presente. A psicoterapia pode ajudar nesse processo de compreensão.
Uma pessoa pode ter trauma emocional mesmo sem lembrar da infância?
Sim. A ausência de lembranças claras não significa que uma experiência não tenha produzido efeitos emocionais. É importante, porém, não criar memórias ou concluir que determinados acontecimentos aconteceram apenas a partir de sintomas atuais.
É possível superar um trauma emocional?
É possível trabalhar terapeuticamente as marcas deixadas por experiências difíceis e desenvolver novas formas de se relacionar consigo mesma e com a vida. O processo não apaga o passado, mas pode transformar a maneira como ele participa do presente.
Um convite para voltar para si
Você não precisa continuar vivendo apenas como a mulher que aprendeu a sobreviver.
Existe uma história por trás dos seus medos, da sua culpa, da sua necessidade de agradar e da dificuldade de cuidar de si.
Olhar para essa história com verdade e amparo pode ser o começo de uma nova relação consigo mesma.
A reconstrução começa onde existe amparo.
Se você deseja compreender melhor sua história e o que ela tem produzido na sua vida atual, conheça meu trabalho terapêutico com mulheres.
Marcelle Santos
Psicanalista Winnicottiana e Ferencziana | Terapeuta de mulheres



